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domingo, 22 de junho de 2014

Resumo de PLATÃO. Livro III de A República. O belo autônomo: textos clássicos de estética. 2a ed. ver. e ampl. Belo Horizonte: Autêntica; Crisálida, 2012, pp.13-28.

O texto é constituído de um diálogo entre Platão e Adimanto, que refletem sobre narrativas escritas e a música em sua sociedade. O objetivo da conversa é determinar estilo, forma e conteúdo das narrativas escritas, com embasamento em valores morais e em bons costumes, de forma que tais expressões artísticas exerçam papel útil sobre os indivíduos, e não incitem a baixeza, a insolência, a insânia, entre outros atos e sentimentos considerados nocivos e inúteis.

Platão utiliza trechos da Ilíada como exemplos de narrativas por imitação, ilustrando o estilo adotado por Homero para convencer o leitor de que o conteúdo da narrativa não é proferido pelo autor, mas pelos próprios personagens dialogando uns com os outros, como acontece na tragédia e na comédia.
Em contraposição ao estilo imitativo, Platão mostra como seria se o recurso narrativo usado pelo poeta fosse a exposição simples, quando o autor apenas relata os acontecimentos, sem dar voz aos personagens. Segundo Platão, é desse modo, sem nenhuma imitação, que acontece a mais simples forma de narração.

Tendo descrito os dois estilos — imitativo e expositivo, Platão indaga seu interlocutor sobre qual dos dois deveria ser permitido aos poetas. Ao que o segundo reduz a questão a: "Devemos ou não permitir em nossa cidade a tragédia e a comédia?"
Não respondendo diretamente à pergunta de Adimanto, Platão afirma que é impossível a qualquer pessoa imitar bem muitas coisas ou fazer as próprias coisas que a imitação reproduz. Ao passo que, quando um indivíduo imita algo "desde a meninice", e prolonga tal imitação por muito tempo, é criado um hábito que se torna uma segunda natureza, passando para o corpo, para a voz e para a própria inteligência.

Assim, Platão diz que, para que os jovens se tornem cidadãos de bem, é inadmissível que os mesmos imitem pessoas do sexo oposto, tanto novas quanto velhas, nem escravos ou escravas, tampouco indivíduos maus e pusilânimes, que trocam insultos, zombam uns dos outros e degradam seus companheiros e a si mesmos.
Contudo, Platão acredita que quando um indivíduo equilibrado tem de reproduzir no decurso de sua narrativa algum dito ou gesto de outro homem de bem, não há vergonha no ato de imitá-lo. E que o mesmo pode reservar o direito de imitar uma pessoa inferior apenas de passagem, numa ou noutra ação meritória mas, ainda assim, envergonhando-se.
Segundo Platão, o poeta ou contador de histórias deve adotar um modo de narração [forma] em discursos e fábulas semelhante ao de Homero, utilizando os dois processos em sua exposição: a imitação e a narração simples. Porém, a imitação deve ocupar parte mínima numa narrativa longa. Além disso, sua exposição deve copiar os modelos que Platão estabelece por lei [conteúdo].

Em seguida, Platão passa a abordar o canto e a melodia. E logo ele divide a canção em três componentes: texto, melodia e ritmo.
Sobre texto, é assunto já resolvido na primeira parte do diálogo: "Não há diferença entre as palavras cantadas e as não cantadas, pois, de qualquer modo, todas terão de ser enunciadas segundo os princípios de que já tratamos, não é verdade?"
Já ritmo e a melodia devem acompanhar as palavras. Portanto as harmonias tristes e moles, e a embriaguez, são inúteis para homens, guerreiros e "até mesmo mulheres". Sobrando apenas a harmonia útil para o sujeito se comportar virilmente na guerra ou em qualquer situação difícil e também a harmonia apropriada para tempos de paz, na execução de qualquer ato espontâneo e não violento.
Como a execução de tais harmonias é simples e requer poucos tons, Platão expurga todos os instrumentos que possuem muitas cordas e que são capazes de todas as tonalidades. Defendendo a ideia de que não é preciso sustentar fabricantes de triângulos e de harpas ou de qualquer instrumento capaz de todas as harmonias. Com isto, ele admite como instrumentos para uso na cidade apenas a lira e a cítara, e, para os pastores do campo, uma espécie de flauta de Pan.
Em relação ao ritmo, Platão procura evitar qualquer movimento que indique baixeza, insolência, insânia e outras variedades. Restringindo-se a ritmos reservados as qualidades contrárias.
Contudo, Platão sugere que toda esta vigilância seja aplicada apenas aos poetas, para obrigá-los a só apresentar em suas composições modelos de bons costumes.

Por fim, é feita uma reflexão sobre o papel da música na educação dos jovens e nos sentimentos que a mesma deve incitar em suas almas. Lembrando que o prazer maior e mais violento é o prazer do amor.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Questão sobre A Crítica do Juízo

O julgamento do belo é próprio de cada um, é subjetivo e particular. Mas, se julgo que algo é belo, pressuponho que o meu juízo é também universal e objetivo.

Como Kant resolve essa contradição?


Kant acredita que o belo é objeto da complacência independente de interesse, fundamentada em faculdades de conhecimento. Portanto, para que um indivíduo contemple o belo universal e objetivo, é necessário que o mesmo experimente uma satisfação pura e desinteressada (complacente) ao deparar-se com um objeto, a partir de uma simples reflexão. Contudo, a contradição citada no enunciado reside no fato de que tal sensação é limitada ao indivíduo, portanto calcada em um juízo particular.

Kant procura resolver a questão tratando da “comunicabilidade do juízo de gosto”. Esta comunicabilidade pressupõe que o agradável pode ter unanimidade sob regras gerais empíricas:
“Em qualquer um, este prazer necessariamente tem que assentar sobre idênticas proporções, porque elas são condições subjetivas da possibilidade de um conhecimento em geral, e a proporção destas faculdades de conhecimento, que é requerida para o gosto, também é requerida para o são e comum entendimento que se pode pressupor em qualquer um. Justamente por isso também aquele que julga com gosto pode imputar a qualquer outro a conformidade a fins subjetiva, isto é, a sua complacência no objeto, a admitir o seu sentimento como universalmente comunicável e na verdade sem mediação de conceitos.”

A comunicabilidade da sensação de prazer particular do belo indica a universalidade de tal beleza. Esta comunicabilidade depende de fatores como "uma proporção das faculdades de conhecimento requeridas para o gosto, que se pode pressupor em qualquer um". Quando experimento uma "satisfação complacente" ao observar um objeto, presumo que todos os que possuem "faculdades de conhecimento requeridas para o gosto" sintam o mesmo, tornando tal beleza universalmente comunicável e objetiva.

sábado, 20 de julho de 2013

Questões sobre a Arte de Amar, Os Campos Perfumados, Philobiblon e Divina Comédia

A Arte de Amar, de Ovídio

Neste primeiro livro de A arte de amar Ovídio oferece orientações ao homem que deseja conquistar uma mulher (solteira ou casada) na sociedade romana. Comente alguns dos conselhos que ele apresenta.

Ovídio traz uma série de conselhos e dicas em uma espécie de manual da vida amorosa de um homem romano. Abaixo estão alguns deles.

PLANO

Antes de começar a das seus conselhos, Ovídio recomenda que o homem escolha um 'alvo' para focar suas ações a fim de fazer ceder a mulher que o agrada:
"Antes de mais, o que quiseres amar, trata de procurá-lo, tu que acabas de entrar, feito soldado, em exército novo; logo depois, hás de empenhar-te em fazer ceder aquela que te agradou;"
PROCURA

Aqui, Ovídio comenta a arte de procurar mulheres, fazendo uma analogia com o ato de caçar:
"Conhece bem p caçador em que lugares há de aos veados estender as redes; conhece bem por que vales vagueia o javali, de dentes afiados; são conhecidos dos passarinheiros os arbustos; aquele que arma o anzol conhece as águas onde nadam os maiores cardumes; assim também tu, que buscas matéria para um amor duradouro, aprende, primeiro, em que lugares abundam as mulheres."
Segundo Ovídio, Roma é farta em mulheres para variados desejos:
"A ti, porém, tantas e tão formosas mulheres de dará Roma, que hás de dizer: 'Esta cidade possui quanto no mundo foi criado' ".
LUGARES DA SEDUÇÃO

Nesta seção, Ovídio comenta sobre os lugares onde pode ocorrer a sedução e mulheres podem ser levadas a fim de que se proceda o cortejo.
"Basta passeares com vagar à sombra do pórtico de Pompeu, no tempo em que o sol avança sobre as costas do leão de Hércules…"
Inclusive, Ovídio fala sobre os diferentes tipos de amor encontrado em lugares específicos:
"Mas tu dedica-te à caça em especial nas arcadas dos teatros; aí vais descobrir o que amar, o que podes usar por diversão, o que tocarás uma vez, o que quiseres guardar por mais tempo."
Assim, Ovídio continua abordando diversos tópicos úteis para o homem romano se dar bem na vida amorosa. Entre estas seções estão: Os Jogos, O Circo, Encenação de um combate naval, Cortejo Triunfal, O Banquete, Outros Lugares, A Sedução, A Mulher e o Desejo, A Paixão Feminina, Seduzir a Criada, A Ocasião, Cartas de Amor, A Arte da Palavra, A Beleza Masculina, O Vinho, Fingimento e Lisonja, Juras e Promessas, entre outros.

Os Campos Perfumados, de Muhammad Al-Nafzawi

Ainda que Os Campos Perfumados, redigido por Muhammad al-Nafzawi no séc. XV, período próspero na Tunísia, tenha sido com frequência recebido no Ocidente como uma obra "erótica", René Khawam, autor do prefácio que acompanha a edição brasileira, chama a atenção para a importância da "matéria médica" e das observações psicológicas e sociais na estruturação do texto, um "livro de educação pelo exemplo". Em sua opinião, é possível encontrar no trecho lido exemplos, elementos que corroborem o ponto de vista de Khawam?

Na minha opinião estes elementos existem, uma vez que o texto tem caráter científico mesmo trazendo informações obtidas empiricamente, como esta:
"Com efeito, as mulheres desejam encontrar em seu parceiro, por ocasião da cópula, um aparelho de boas dimensões, cujo gozo se estenda ao longo do tempo."
Considero estas assertivas meras constatações de um conhecimento que o autor obteve provavelmente por observação ou experiência vivida.

Ainda, Muhammad Al-Nafzawi traz informações úteis que podem ser utilizadas de forma educativa, como o fato de usar perfumes para supostamente ter uma cópula de maior qualidade:
"A utilização dos perfumes para os homens e para as mulheres ajuda a cópula e a multiplica. Quando a mulher sente o cheiro do perfume no corpo do homem, ela se distende de maneira completa."
Portanto, não considero o texto uma obra erótica, mesmo que o tema abordado seja o sexo.

Philobiblon, de Richard De Bury

O reverendo Richard de Bury publicou, em 1344, o Philobiblon, uma verdadeira declaração de amor aos livros e à cultura letrada. O capítulo que lemos, o IX, intitula-se "De como os antigos estudantes eram superiores aos atuais em fervor discente". Por que, afinal, na opinião de Bury, eram esses antigos estudantes superiores em "fervor discente"?

Para Richard De Bury, o ardor por aprender dos antepassados era muito maior do que o de seus contemporâneos, uma vez que estes "consagravam a sua vida inteira [aos estudos], enquanto que nossos contemporâneos passam os fecundos anos de sua juventude dominados pelo vício."

O autor cita como causa deste desinteresse dos discentes de sua época pelo aprender e os estudos a preferência às "fumegantes obrigações da juventude" frente a qualquer dificuldade encontrada. Além disso, a ambição é destacada como outro fator que desvia os jovens de pesquisas e estudos profundos.

Divina Comédia, de Dante Alighieri Canto IV

Os termos em que o legado da Antiguidade Pagã deveria ser incorporado pelo Cristianismo foram motivo de grandes debates desde os primórdios da Igreja. No famoso Canto IV do Inferno, Dante apresenta sua própria "solução" para esse impasse. De que forma Dante incorpora grandes figuras pagãs a um mundo cristão nesse canto? Que figuras o narrador, Dante, parece ali admirar mais?

Nos versos de Dante, os grandes nomes da Antiguidade pagã, virtuosos que não podem ser beatificados por não terem recebido o batismo, habitam um nobre castelo em uma região situada nas bordas do inferno, chamada de limbo. E esta é a "solução" de Dante para o impasse referido na pergunta, estes grandes vultos da antiguidade pagã não sofreram nenhum tipo de pena, mas também não obtiveram o direito de ir ao paraíso, como Virgílio diz a Dante:
Meu Mestre a mim: "Não te ouço perguntar
que espíritos são esses que tu vês:
eles, te explico antes de mais andar,

não pecaram, mas não têm validez,
sem batismo, seus méritos, e isto
faz parte dessa fé na qual tu crês;

e os que tenham vivido antes de Cristo
não adoraram Deus devidamente,
e eu dessa condição também consisto.
As figuras que Dante enfatiza como grandes sábios, além de Virgílio e de si mesmo são: Homero, Horácio, Ovídio e Lucano. Como podemos observar nos seguintes versos:
logo ouvi do guia a chamada:
"Olha o que vem à frente qual decano
dos outros três, segurando uma espada;

ele é Homero, poeta soberano;
o satírico Horácio junto vem,
terceiro é Ovídio e último Lucano."

sábado, 22 de junho de 2013

Relatório de visita ao Estúdio Galeria Mamute

- Data da Visita -
18 de maio de 2013.

- Dados do Espaço -
Nome: Estúdio Galeria Mamute
Endereço: Rua Caldas Júnior, 375, Centro Histórico, Porto Alegre/RS
Tipo de instituição: Espaço de arte destinado à criação, produção e circulação da tecnologia digital, com ênfase na imagem-movimento.

- Estrutura Física -
Localiza-se no Centro Histórico de Porto Alegre, em um espaço tombado pelo patrimônio histórico da cidade, com arquitetura de estilo eclético, mesclando elementos neoclássicos, barroco e Art Nouveau. Antigo prédio onde morava uma família, construído em 1925.

- Pessoal -
São 4 pessoas envolvidas diretamente com as atividades, Niura Borges, seus 2 filhos e Leocádia Costa.

- Atividades desenvolvidas -
Promove a exposição de video-arte, mostras audiovisuais, cursos, palestras, intercâmbio e residência artística. O espaço foi criado para representar um local de discussão, prática e exposição das artes. Trata-se da primeira galeria direcionada para as novas tecnologias na arte.

- Profissional que guiou a visita -
Niura Mariza Oliveira da Silva Borges, diretora da galeria. Mestre em Artes Visuais Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, UFRGS (2008); Especialista em Poéticas Visuais: Gravura, Fotografia e Imagem Digital - FEEVALE, Novo Hamburgo, RS (2004); Especialista em Psicopedagogia CEP/ Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ. Pesquisadora CNPQ Interartes: Processos e Sistemas Inter-artísticos e Estudos de Performance, Linguagem Visual, Sonora e Audiovisual, UFG/GO; Pesquisadora Imagem Escultura do Tempo, Instituto de Artes/UFRGS. Atua nas áreas da Arte e tecnologia, video-arte, audiovisual documental, experimental e performance.

- Assuntos abordados pelo profissional -
Ao chegarmos no prédio histórico onde está situado o estúdio, fomos recebidos com a proposta de exibição de um vídeo integrante da amostra que ocorria na ocasião: "Entre Sensíveis Pixels. Espaço - Tempo - Agora". Tratava-se de uma gravação feita dentro do mundo tridimensional virtual da plataforma Second Life, por Gabriel Mascaro, chamado As Aventuras de Paulo Bruscky (2010).
Após a exposição do vídeo, a turma teve um momento para conversar, ouvir e fazer perguntas à Niura Borges.
Niura resolveu abrir o Estúdio Galeria Mamute para proporcionar um lugar que desse espaço para a produção artística de imagem e tecnologia, primeira galeria a trabalhar com video-arte no Brasil. A fim de viabilizar sua idéia, buscou e obteve parcerias e apoios institucionais do Santander Cultural, GBOEX e Núcleo de vídeo do RS. Além, a galeria também comercializa obras, recebe investimentos e doações.
A diretora explicou que o processo de entrada de uma obra no espaço da galeria se dá da seguinte maneira:
1 - Artista entra em contato;
2 - Estúdio solicita portfolio;
3 - Estúdio analisa consistência das obras, se há algum investimento em pesquisa..
4 - Artista deve contribuir com uma obra, curso, palestra…
5 - Estúdio fornece espaço e curadoria.

- Fontes -
Anotações feitas durante a visita.
Site do Estúdio Galeria Mamute: http://www.galeriamamute.com.br/#!sobre/c161y
Site pessoal da Niura Borges: http://www.niuraborges.com.br/

Acessados em 22 de junho de 2013.

Relatório de visita à Bolsa de Arte de Porto Alegre

- Data da Visita -
8 de junho de 2013.

- Dados do Espaço -
Nome: Bolsa de Arte de Porto Alegre
Endereço: Rua Visconde de Rio Branco, 365, Floresta, Porto Alegre/RS
Tipo de instituição: Galeria de arte que promove a exposição e, principalmente, a comercialização de trabalhos de um grupo selecionado de artistas. Bem como disponibiliza consultoria para colocação e posicionamento de obras adquiridas por seus clientes.

- Estrutura Física -
A sede da Bolsa de Arte, com mais de 800 metros quadrados, conta com 2 pavimentos dispostos verticalmente. O primeiro é composto por hall de entrada, recepção, 2 galerias, acervo, cozinha, depósito e um jardim aos fundos. O pavimento superior possui mais 2 galerias, escritório e depósito.

- Pessoal -
Diretores:
Marga Pasquali e Egon Kroeff. 

Artistas Agenciados pela Bolsa de Arte atualmente:
Ana Michaelis
André Lichtenberg
Angelo Venosa
Begoña Egurbide
Carlos Pasquetti
Carlos Vergara
Clarissa Cestari
Clovis Dariano
Cristina Canale
Denise Gadelha
Eduardo Haesbaert
Fernando Ribeiro
Francisco Faria
Gabriela Machado
Gelson Radaelli
Hugo França
Jorge Menna Barreto
José Bechara
Leopoldo Plentz
Luiz Carlos Felizardo
Luiz Felkl
Marcos Chaves
Maria Tomaselli
Marina Camargo
Nelson Leirner
Nelson Wilbert
Patricio Farías
Regina Silveira
Saint Clair Cemin
Shirley Paes Leme
Teresa Poester
Valdir Cruz
Vera Chaves Barcellos

- Atividades desenvolvidas -
A Bolsa de Arte trabalha com arte contemporânea, representando artistas significativos do mercado brasileiro (listados anteriormente) e lançando novos talentos. A galeria realiza exposições e participa ativamente de feiras no Brasil e no exterior.

- Profissional que guiou a visita -
Marga Pasquali, diretora da Bolsa de Arte.

- Assuntos abordados pelo profissional -
Marga Pasquali nos recebeu com expressos no pavimento superior da Bolsa de Arte, mesa redonda no centro de uma das galerias.
A diretora deu atenção em sua fala aos aspectos financeiros e comerciais que envolvem a Bolsa de Arte, enfatizando que o lugar funciona de fato como uma loja. Entre as atividades estão a participação em 4 feiras de arte por ano, 2 no Brasil e 2 no exterior, a consultoria para colocação e posicionamento de obras vendidas e participação em fundos de investimento em arte, e.g. Brazilian Gold Fund.
Sobre a importação de trabalhos, Marga destacou que os impostos são um grande empecilho, 48%. Com isso, o jeito é pedir ao artista ou outra pessoa que venha ao Brasil com a obra debaixo do braço.
A diretora também comentou sobre o caráter de agência de artistas que a Bolsa de Arte incorpora, representando um grupo de 30 artistas bem como, eventualmente, apostando em novos talentos. Contudo, definiu como anti-profissional o artista que apenas usa a galeria apenas para exposição.

- Fontes -
Anotações feitas durante a visita.
Site da Bolsa de Arte de Porto Alegre: http://www.bolsadearte.com.br
Acessado em 22 de junho de 2013.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Confissões de Agostinho de Hipona

Em Confissões, Agostinho de Hipona se dirige a Deus de forma penitente, lamentando-se por pensamentos e práticas incompatíveis com os ensinamentos cristãos que ele havia praticado quando jovem. No início, o santo fala com arrependimento sobre as libertinagens de sua adolescência. O futuro patriarca da Igreja era afeiçoado aos prazeres carnais:
"Era para mim mais doce amar e ser amado, se podia gozar do corpo da pessoa amada. Deste modo, manchava com torpe concupiscência aquela fonte de amizade."

Além do sexo ser central para um relacionamento amoroso, para Agostinho, tais interações também estavam inexoravelmente ligadas a sentimentos negativos, as "esbraseantes varas do ciúme, das suspeitas, dos temores, dos ódios e das contendas".

Outra de suas falhas é o prazer dramático, manifestado através de compaixão como espectador de peças teatrais onde os personagens passavam por infortúnios na vida. Para Agostinho, a demonstração de tal compaixão era sinal de prazer e satisfação em testemunhar a desgraça alheia, ou até o desejo subconsciente de que tais infelicidades também o acometessem.
"Mas eu, miserável, gostava então de me condoer, e buscava motivos de dor. Só me agradava e me atraía com veemência a ação do ator quando, num infortúnio alheio, fictício e cômico, me borbulhavam nos olhos as lágrimas. Que admira pois que eu, infeliz ovelha desgarrada do vosso rebanho e renitente à vossa guarda, me afeiasse com ronha hedionda?"
Por fim, antes de começar a relatar sua aproximação de Deus, Agostinho revela seus estudos de retórica quando na idade de 19 anos, prática condenada por ele, classificada como uma espécie de "arte da mentira". Naturalmente, ele sente-se mal por um dia ter se orgulhado pelo fato de nessa época estar em um círculo social onde a retórica era um distintivo de elegância.
"Os estudos a que me entregava, e que se apelidavam de honestos, davam entrada para o foro dos litígios, onde me deveria distinguir tanto mais honrosamente quanto mais hábil fosse a mentira. Quão grande é a cegueira dos homens que até da cegueira se gloriam ! Já naquele tempo era o primeiro da escola de retórica, coisa que me alegrava soberbamente e me fazia inchar de vaidade."

terça-feira, 28 de maio de 2013

Péricles e Fábio Máximo, por Plutarco

O paralelo entre as trajetórias de Péricles e Fábio Máximo traçado por Plutarco é válido quando consideramos os papéis que ambos assumiram perante seus povos. Contudo, as origens e personalidade de um e outro são pouco compatíveis.

Péricles é de linhagem nobre: "era da tribo acamântida, do demo de Colarges, de uma casa e de uma família ilustre tanto pelo lado paterno quanto materno." recebeu refinada educação: aprendeu música com Damão (ou Pitóclides, segundo Aristóteles); acompanhou cursos de Zenão de Eléia e teve como principal mestre Anaxágoras, filósofo pré-socrático que "lhe comunicou altivez e a gravidade tão pesadas para o chefe de uma democracia; que, numa palavra, elevou e exaltou a dignidade de seu caráter".
Péricles e sua cabeçorra
Fábio Máximo tem origem menos pomposa que Péricles: "Diz-se que uma ninfa, após deitar com Héracles à margem do Tibre, deu ao mundo Fábio…". Além disso, aparentemente não teve instrução de sábios conhecidos, pois priorizou o exercício físico, preparando o corpo para torná-lo uma arma militar natural. Mas também praticou a arte da palavra como instrumento de persuasão inteiramente adaptado a sua maneira de viver. Porém, isso não significa que seu modo de falar era rebuscado como o de Péricles: "Não havia em seu discurso nem ornamentos trabalhados nem graças vazias, nada que evocasse a eloquência judiciária: em sua boca, a razão assumia um tom muito particular e uma profundeza notável". Já Péricles era visto por muitos como uma pessoa esnobe em sua forma de expressar-se verbalmente: "O Poeta Ião afirma que Péricles, em sociedade, era arrogante e soberbo, misturando-se-lhe ao ar pomposo muito de desdém e desprezo pelos outros."
Fábio Máximo pronto pra uma partida de quadribol
Tendo em vista estas divergências de origem e personalidade, que são marcantes, poderíamos julgar pouco razoável a comparação feita por Plutarco. Entretanto, ambos foram grandes líderes amados por seus povos e vencedores de muitas batalhas, mesmo que em contextos inteiramente diferentes. Já que Péricles assumiu uma Atenas rica e próspera, ao passo que Fábio Máximo esteve à frente de Roma em um período de muitas dificuldades.

domingo, 19 de maio de 2013

Relatório de visita ao Studio Clio

- Data da Visita -
4 de maio de 2013.

- Dados do Espaço -
Nome: Studio Clio Instituto de Arte & Humanismo
Endereço: Rua José do Patrocínio, 698, Cidade Baixa, Porto Alegre/RS
Tipo de instituição: Segundo Francisco Marshall, curador cultural do instituto, não há um termo formal que define o tipo de instituição no qual o StudioClio se enquadra, apesar de alguns confundirem com uma casa do saber. No site da instituição o lugar é referenciado como "espaço para experiências de conhecimento e imaginação".

- Estrutura Física -
O instituto fica em um prédio construído em 1924 e reformado em 2004/2005. A construção dispõe de auditório, café, mezanino e microgaleria.

- Pessoal -
Atualmente a equipe responsável pelo funcionamento do instituto é composta da seguinte forma:

Curador cultural - Francisco Marshall
Curador adjunto - Tiago Halewicz
Sócio-gerente - Otávio Marshall
Atendimento - Bruno Lentz e Natasha Piva
Segurança - Davi da Silva Rodrigues
Contra-regra - Mateus Vieira
Assessoria de comunicação - Núcleo Hermes de Comunicação
Designer gráfico - Victoria Campello
Produção - Fátima Costa

- Atividades desenvolvidas -
O instituto propõe atividades transdisciplinares que abordam diferentes conteúdos da história cultural e universal. Sua programação integra a arqueologia, as artes visuais, o cinema, a dramaturgia, a filosofia, a gastronomia, a história, a literatura, a moda e a música, dentre outros campos científicos, em atividades expressas de diversas formas.

- Profissional que guiou a visita -
Francisco Marshall, curador cultural do instituto. Responsável pela concepção da programação científica e cultural. Licenciado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1988) e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (1996), Francisco Marshall realizou pós-doutorado na Princeton University (NJ, EUA, 1998), como bolsista Capes-Fulbright, convidado de Peter Brown, e na Ruprecht-Karls-Universität Heidelberg (Alemanha, 2008-9), como bolsista da Fundação Alexander von Humboldt. É professor associado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atuando no Depto. e PPG História (IFCH) e no PPG Artes Visuais (IA). Tem experiência nas áreas de História e de Arqueologia Clássica, com ênfase em História Antiga e Medieval, atuando principalmente em história antiga, arqueologia clássica, museologia, iconologia, estudos do imaginário e história da cultura.

- Assuntos abordados pelo profissional -
Francisco Marshall falou sobre a história e formação do StudioClio, fundado em 20 de setembro de 2005 por seu irmão e ele, com capital majoritariamente advindo de herança deixada pelo avô (cerca de 1 milhão e meio de dólares). 

Segundo Marshall, o instituto desempenha o papel de um "fármaco intelectual cultural pós-freudiano", com a pretensão de ser um espaço que que é "tudo ao mesmo tempo", integrando atividades transdisciplinares de arte e humanísticas, em diversas formas de expressão. "Único lugar assim no mundo". Para ele, a transdisciplinaridade é uma maneira de curar a fragmentação da vida contemporânea.

Marshall destacou que um dos papéis do instituto é pensar na memória cultural e representá-la de modo estético, a fim de criar indexadores culturais nos indivíduos, de forma didática. Para isso, o studio conta com um auditório multimodal com infraestrutura de cinema digital, onde são apresentadas apenas imagens em altíssima resolução e bem contextualizadas. Este auditório também pode tornar-se uma sala de concertos, uma sala de banquetes, uma sala de aula com recursos audiovisuais ou um clube de jazz ideal para instrumentos acústicos.

- Fontes -
Anotações feitas durante a visita;
Site do Studio Clio: http://www.studioclio.com.br/
Currículo Lattes do profissional que guiou a visita: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?metodo=apresentar&id=K4763606A0
Acessados em 19 de maio de 2013.

terça-feira, 14 de maio de 2013

As Troianas

Hécuba e Andrômaca são troianas sobreviventes da guerra de Troia contra os gregos, que pilharam a cidade e mataram os homens que em vão tentaram a defender. Hécuba é esposa de Príamo, mãe de Polixena, Cassandra e Heitor que, em vida, era casado com Andrômaca.

Cassandra, filha de Hécuba
A história criada por Eurípedes acontece nos limites da cidade destruída de Troia, ao final da guerra. Hécuba e Andrômaca estão passando por profunda tristeza: Como se não bastasse o luto causado pela morte de seus amados (Polixena e Heitor), as troianas estão sendo vendidas como escravas, servas e concubinas para senhores gregos, vitoriosos na guerra.

Hécuba é uma mulher em idade mais avançada que Andrômaca e, aparentemente, esta maior experiência é traduzida em um pouco de lucidez mesmo em meio a tantas lamentações:
"Isto já não é mais Troia, nem somos a família real de Troia. A fortuna varia; sê brava. Navega com a corrente, navega com o vento do destino. Não enfrentes com o navio da vida os vagalhões do infortúnio. Ah! Eu choro. E por que não poderei chorar em minha desgraça? Perdi minha pátria, meus filhos, meu marido. Ó nobreza, com o teu orgulho espezinhado, nada queres dizer, afinal de contas."
Podemos observar que Hécuba, mesmo sofrendo com as desgraças que a aflige, ainda consegue manter algum poder de discernimento, revelando até uma espécie de otimismo. Enquanto Andrômaca, ainda muito apegada ao finado esposo ("...se eu esquecer de meu querido Heitor e abrir meu coração ao meu senhor atual, perecerei trair os mortos.") e a seus valores morais, que a tiram quaisquer perspectivas pessoais de voltar a ter uma vida "normal" ("...abomino a mulher que se casa de novo e se esquece de seu primeiro marido nos braços do segundo.).

Nestes diferentes modos de lidar com o infortúnio reside a grande diferença entre as duas. Para Andrômaca, a desgraça é tão definitiva que não há mais motivos para continuar vivendo, enquanto Hécuba ainda alimenta  alguma confiança, como podemos observar em um trecho de um de seus diálogos:
ANDRÔMACA: Ela (Polixena) morreu como morreu. E, no entanto, na morte é mais feliz do que eu, que vivo.
HÉCUBA: A morte e a vida não são a mesma coisa, minha filha. A morte é o nada; na vida há esperança.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A mudança de fortuna de Creso, relatada por Heródoto

De acordo com os relatos de Heródoto, Creso, rei da Lídia, vive uma profunda mudança de fortuna durante sua vida. Inicialmente ele está em seu apogeu, gozando de enormes riquezas em ouro e prata. Com um filho jovem que demonstra habilidades que estão acima das demonstradas por outros homens de sua idade. Além de boas relações com outras regiões, sobretudo Delfos.
Creso (Claude Vignon, 1629)
Contudo, ao final da narrativa, Creso é despojado de suas riquezas e exército ao ser derrotado em batalha contra a Pérsia, liderada por Ciro, que passa a dominar a Lídia. Além disso, Creso também perde seu filho Átis, citado anteriormente. Após estes episódios trágicos, Creso quase é queimado na fogueira por Ciro, que acaba demonstrando compaixão e clama a Apolo que apague o fogo. O pedido é atendido e Creso sobrevive, servindo a Ciro como conselheiro a partir de então.

Para Heródoto, a mudança de fortuna de Creso se deve às sucessivas interpretações arrogantes que ele fez de predições de Apolo. O deus disse-lhe que se fizesse guerra aos Persas, um gande império seria destruído. No entanto Creso não o questionou novamente a fim de saber qual império estava sendo referido e travou guerra contra Ciro, sendo derrotado.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

VOCÊ ESTÁ AQUI

Semana passada, como atividade proposta para disciplina de Fundamentos das Artes Visuais, ministrada pela Professora Elida Tessler, visitei pela primeira vez o Estúdio Galeria Mamute, surpreendentemente a umas duas quadras da minha casa, no centro de Porto Alegre.
Lá estava em exposição uma mostra de Daniel Escobar: "você está aqui". Com curadoria de Bernardo José de Souza.

Ao chegar fui muito bem recebido pela diretora do estúdio, Niura Borges. Simpática e atenciosa, contou um pouco sobre a história do lugar, que já funciona neste local há cerca de 2 anos, promovendo exposições de arte, mostras audiovisuais, cursos, palestras, intercâmbios e residência artística. Feito isso, tivemos uma breve conversa sobre a mostra ali exposta antes dela se retirar rumo ao escritório situado aos fundos da galeria.

- A mostra -

A disposição e tamanho das salas do estúdio, bem como o fato das mesmas estarem em um prédio antigo (aqueles do centro com arquitetura portuguesa do fim do século XIX, início do XX) tornam o ambiente aconchegante e proporciona contato próximo com as obras. Lá estavam acomodadas as 5 que integram a mostra.

A primeira obra que observei chama-se "Permeável XXV (Perto Demais)". Trata-se de um cartaz composto por diversas camadas resultantes da colagem e sobreposição de fragmentos de outdoors doados por empresas colaboradoras, que recebem a interferência de pequenos furos, produzidos com um perfurador de escritório. Vi representado nesse quadro uma síntese do aglomerado de informações visuais que recebemos passivamente todos os dias no espaço urbano. Também acho que a "permeabilidade" que os furos atribuíram à imagem (ou às imagens) remete à efemeridade de tais informações, ao mesmo tempo que confere um tom misterioso à informação resultante da soma das demais.
Permeável XXV (Perto Demais), 2012. Foto: Márcio Oliveira
Próxima à Permeável XXV, estava a "Scrollbar", composta por fitas adesivas sobre uma das paredes da sala. A imagem é o resultado direto de uma projeção do entorno do centro de Porto Alegre obtido no Google Maps. Me chamou a atenção o detalhe da fita vermelha, posicionada no ponto do mapa onde está o estúdio, como se estivesse me passando a mensagem que sempre procuramos em um mapa quando estamos perdidos: "Você está aqui". 
Scrollbar, 2013. Foto: Márcio Oliveira
A transição da primeira para a segunda sala é guiada por uma parte da instalação que compõe a terceira obra: "Continuous". Composta por tiras de papel branco que saem de máquinas fragmentadoras de ferro alimentadas por bobinas. No centro, as tiras vindas de diferentes direções formam um entrelaçado de linhas horizontais, verticais e diagonais que remontam as vias urbanas da parte planejada da cidade de Belo Horizonte. A exatidão e simetria das ruas bem construídas entra em contraste com a confusão das tiras de papel que as dão origem. O próximo passo seria transferir a rigidez arquitetônica do centro para as tortuosas vias periféricas ou inserir uma dose de "caos" na parte planejada?
Continuous, 2012. Foto: Márcio Oliveira
Em uma das paredes vizinhas à obra "Continuous" estavam 3 quadrinhos que formam o "Atlas de Anatomia Urbana". Mais uma vez inspirado em Belo Horizonte, estão expostos guias turísticos da cidade, com recortes que davam um caráter de escultura aos livros a partir de uma "excavação" das páginas. O resultado imediato é a revelação dos cruzamentos entre os mapas das diferentes regiões da capital mineira.
Atlas de Anatomia Urbana, 2012. Foto: Márcio Oliveira
Por último, em um quartinho no fim da galeria, intencionalmente mal iluminado, estava exposta sobre uma mesa a obra "The World". Uma série de guias turísticos de diversos países (França, Inglaterra, México, Italia, Cuba, Mongolia e EUA) abertos sobre uma mesa de madeira. A colagem de imagens retiradas dos próprios guias de forma vertical sobre eles deram um efeito muito legal. Um novo conceito em guias turísticos, tipo aqueles livros pop-up.
Guia turístico da Itália. The World, 2011. Foto: Márcio Oliveira
Guia turístico de Pequim. The World, 2011. Foto: Márcio Oliveira
Ao me despedir da mostra, da Niura e da galeria, concluí que uma das mensagens que a mostra transmite é: Você está aqui. Aqui no centro de Porto Alegre, no espaço urbano, na cidade, no mundo, dinâmico, vivo, movediço, em constante evolução e que merece ser explorado.

Como proposto pela Professora Elida, segue minha pergunta para o Daniel Escobar: Daniel, percebi uma sequência lógica dada pela ordem de apresentação das obras: Porto Alegre (o lar de origem), Belo Horizonte (mudança para cidade maior e distante de casa) e mundo (estágio mais avançado desta libertação e desprendimento). O quarto que representa o mundo ainda é pequeno e mal iluminado (um ambiente até um pouco onírico). Algum dia pretendes fazer o caminho inverso, em ordem e tamanho?

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Comentário sobre a conversa filosófica entre Krishna e Arjuna em Bhagavad Gita

Arjuna está diante de seus parentes, situados no lado oposto do campo de batalha. Paralisado, ele ouve os conselhos de Krishna, o Ser Supremo que, na batalha, conduz seu carro. Arjuna não quer, em um primeiro momento, matar seus parentes. Que argumentos Krishna evocará para dissuadi-lo?

Quando a batalha está prestes a ter início, Arjuna pede a Krishna que o carro onde eles estão seja elevado até um ponto intermediário entre os dois lados do campo de batalha (kurus [lado oposto] e pândavas [lado que Arjuna defende]), a fim de que seja possível ver os rostos das pessoas contra as quais ele irá lutar e, provavelmente, matar.

Krishna atende ao pedido de Arjuna e, ao avistar os guerreiros inimigos, ele percebe que ali estão seu pais, irmãos, amigos e mestres. Neste momento, Arjuna demonstra grande aflição e se encontra desmotivado para o combate: "E quando Arjuna viu isso, entristeceu-se no seu nobre coração e, cheio de aflição e dó, proferiu estas palavras: Ó Senhor, vendo eu as faces e os vultos dos parentes que querem lutar uns contra os outros, sinto exaustos de forças meus membros e sem sangue meu coração.". Ainda, Arjuna deixa claro que seus parentes o querem morto e, caso ele vença a batalha, sua recompensa será grandiosa: "…não quero matá-los, embora eles tenham sede do meu Sangue! Embora, com isso, obtivesse o reino dos três mundos."
Arjuna em seu carro guiado por Krishna entre Kurus e Pândavas
Aqui, é interessante observar as metáforas associadas a alguns elementos presentes. A área intermediária do campo de batalha, onde Krishna leva o carro de Arjuna, é interpretada como Antaskârana: A "ponte" ou "caminho" entre a parte terrena e divina da mente. Assim, podemos atribuir os Kurus (liderados por Brishma, que representa o egoísmo e a obstinação) à parte terrena, e os Pândava (que obedecem à vontade divina) à parte divina da mente. O que pode nos levar a supor que o campo de batalha seja uma representação abstrata da mente de Arjuna, e que o conflito iminente de fato seja algo pelo qual o jovem está passando internamente durante o processo de busca pelo seu Ser Real, conceito explicado por Krishna mais tarde. Ainda, o carro de Arjuna é conduzido por um cavalo branco, marca de coragem, obediência e pureza, e em sua cimeira figura um macaco, tomado como símbolo da audácia e da engenhosidade, sugerindo que Arjuna seja um homem jovem em desenvolvimento.

Arjuna vê parentes, amigos e mestres do outro lado do campo de batalha como 'inimigos', pois, considerando o campo de batalha como sua mente, estas pessoas são degraus pelos quais ele deve subir para obter o conhecimento perfeito de si mesmo.
Estátua de Arjuna em Bali, Indonesia

Ao ver Arjuna entristecido e sem forças para lutar, Krishna o diz que "o homem cheio de medo e dúvidas afasta-se por si mesmo do céu e da bem-aventurança, que é próprio à alma que conhece a verdade.". A entidade quer dissuadi-lo da ideia de desistir da batalha e encorajá-lo a lutar e vencer. Para isso, expõe uma série de argumentos filosóficos do hinduísmo (doutrina Sankya), a fim de abrir os olhos de seu interlocutor e ensiná-lo que "os sábios não se entristecem nem por causa dos vivos nem por causa dos mortos".

A conversa que se segue é reveladora. Krishna passa ensinamentos sobre a alma, que é imperecível e indiferente ao estado do corpo material que habita. E que as experiências sensoriais físicas (como prazer e dor), por estarem inexoravelmente ligadas ao corpo material (Ser Irreal), são efêmeras e irrelevantes quando comparadas a constância e eternidade da alma (Ser Real), "o homem que não se deixa mais atormentar por essas coisas, - que se conserva firme e inabalável no meio do prazer e da dor, - que possui a verdadeira igualdade de ânimo: esse, crê-me, entrou no caminho que conduz à imortalidade."

Portanto, seria presunção de Arjuna pensar que é capaz de matar alguém, já que o Ser Real é indestrutível e imperecível. Ninguém pode exterminá-lo: "Aquele que pensa, em sua ignorância: 'Eu mato' ou 'Eu serei morto', procede como criança que não tem conhecimento da verdade, porque o que É na realidade, é eterno, e o Eterno não pode matar nem ser morto. Conhece esta verdade ó príncipe! O Homem real, isto é, o Espírito do homem, não nasce nem morre. Inato, imortal, perpétuo e eterno, sempre existiu e sempre existirá. O corpo pode morrer ou ser morto e destruído; porém, aquele que ocupou o corpo, permanece depois da morte deste."

Mesmo que Arjuna tenha dificuldade ou se negue a acreditar nestas palavras, Krishna o faz refletir sobre a infalibilidade da morte: "Se, porém, não crês, e pensas que nascimento e morte são coisas reais, mesmo assim te pergunto: por que te lamentas e entristeces? Em verdade, a morte deriva do nascimento, e o nascimento decorre da morte. Não te aflijas, pois, pelo inevitável."

Por fim, Krishna ainda afirma que se Arjuna desistir da luta, ele ficará envergonhado pela desonra perante seu povo. O que, para um nobre de nascimento, é pior que a morte.

domingo, 14 de abril de 2013

Relatório de visita ao Arquivo Histórico do Instituto de Artes da UFRGS

- Data da Visita -

23 de março de 2013.

- Dados do Espaço -

Nome: Arquivo Histórico do Instituto de Artes da UFRGS
Endereço: Rua Sarmento Leite 500, Sala 114, Bairro Centro Histórico, Porto Alegre.
Tipo de instituição: Arquivo Histórico

- Estrutura Física -

O arquivo é localizado nos fundos do prédio da antiga faculdade de medicina da UFRGS, no centro de Porto Alegre. A estrutura é relativamente precaria em relação a qualidade da maioria das prateleiras que acomodam os documentos. Porém, tudo parece bem organizado. O arquivo ainda dispõe de um scanner tamanho A3 para digitalização do acervo.

- Pessoal -

Atualmente o arquivo conta com uma arquivista, um técnico administrativo e dois bolsistas de iniciação científica.

- Atividades desenvolvidas -

Além de catalogar e armazenar documentos, o arquivo é responsável por manter viva a memória do IA e e das pessoas que passaram por ele. Nesse sentido, foi possível observar os esforços da arquivista Medianeira a fim de descobrir mais informações a respeito de documentos e fotos que não se sabe muito sobre. O arquivo ainda é aberto ao público para consulta de todo o material.

- Profissional que guiou a visita -

Medianeira Aparecida Pereira Goulart. Bacharel em Arquivologia pela Universidade Federal de Santa Maria, em 1993. Especialista em Gestão em Arquivos, em 2010. Arquivista na Universidade Federal do Rio Grande Do Sul. Atua nas áreas de gestão em arquivos, elaboração e desenvolvimento de projetos e sistemas de informação, memória, história e políticas de preservação e conservação de acervos.

- Assuntos abordados pela profissional -

A visita se deu na sala da arquivista Medianeira, responsável pelo arquivo. Lá ela nos recebeu e começou contando a história do IA, com muitos detalhes que já haviam sido colocados pelo prof. Paulo Gomes na visita ao instituto. No entanto, serviu como contextualização para as demais histórias sobre a constituição do arquivo, que se trata de um lugar onde muito da memória do instituto está guardado.

Medianeira relatou o descaso histórico que existiu no arquivo, com documentos, fotos e obras depositados em ambientes inapropriados, propícios a formação de mofo e suscetíveis a alagamentos, fatores que arruinaram muitos materiais. A partir deste cenário ela destacou a iniciativa decisiva para a reconstituição do arquivo realizada pelo prof. Sírio Simon.

Além da iniciativa do prof. Sírio, Medianeira nos contou com orgulho sobre suas batalhas pessoais para manter e ampliar a estrutura e os recursos físicos e humanos do arquivo, desde 2001. Batalhas que geraram várias conquistas e fizeram o arquivo hoje estar em uma situação confortável dentro da universidade.

- Fontes -

Site do Arquivo: http://www.ufrgs.br/arquivo-artes/icaatom/web/index.php/page/contato
Acessado em 5 de abril de 2013.

Relatório de visita ao Instituto de Artes da UFRGS

- Data da Visita -

16 de março de 2013.

- Dados do Espaço -

Nome: Instituto de Artes da UFRGS.
Endereço: Rua Senhor dos Passos, 248, Bairro Centro Histórico, Porto Alegre.
Tipo de instituição: Unidade acadêmica integrante da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

- Estrutura Física -

A unidade acadêmica é constituída por um prédio de 8 andares, na Rua Senhor dos Passos, Centro de Porto Alegre. Nele estão situados os departamentos de Artes Visuais, de Arte Dramática e de Música, além dos programas de pós-graduação em Música, Artes Visuais e Artes Cênicas.

- Pessoal -

Possui mais de 100 professores, 55 funcionários do corpo técnico-administrativo e cerca de 800 alunos matriculados na graduação e na pós-graduação.

- Atividades desenvolvidas -

Atualmente o Instituto de Artes funciona como uma unidade universitária da UFRGS, disponibilizando cursos de graduação, pós-graduação, pesquisa e extensão em artes visuais, dramáticas, música e história da arte. Além das atividades presenciais, também são disponibilizadas aulas à distância de licenciatura em artes visuais e música.

- Profissional que guiou a visita -

Paulo Gomes. Artista plástico, curador independente e professor na UFRGS. Mestre e Doutor em Artes Visuais – Poéticas Visuais, pela UFRGS. Desenvolve pesquisa na área de Poéticas Visuais, sobre arte contemporânea e arte no Rio Grande do Sul. Tem textos publicados em livros, revistas e jornais.

- Assuntos abordados pelo profissional -

O profissional demonstrou grande conhecimento da história do instituto e sua situação atual. Inicialmente aconteceu uma conversa em sala de aula, onde o mesmo contou sobre sua fundação em 1908 (então chamado Instituto Livre de Belas Artes), pelo médico Olinto de Oliveira. Segundo Paulo, o termo "Livre" significava que o instituto era livre de filiação estatal ou religiosa. Paulo ainda contou sobre os primeiros anos do instituto, seus professores e diretores mais importantes e de como ele foi uma das unidades acadêmicas que deram início à UPA (Universidade de Porto Alegre), em 1939. Esta integração à Universidade de Porto Alegre não durou muito tempo, devido a um suposto preconceito de cursos como engenharia e medicina para com os cursos de artes. Contudo, em 1962 o IA é integrado à UFRGS.

Paulo ainda destacou que o prédio onde estávamos teve sua construção concluída em 1943 e se tratava da obra central de um complexo de 3 prédios. O projeto original previa este prédio, com salas de aula e secretarias, e doi laterais, constituindo um teatro e um museu. Entretanto, não foi possível levantar a quantia necessária para a realização plena do projeto, e assim, apenas o prédio atual foi construído, com capital obtido através de hipotecas das casas e bens dos professores do Instituto.

Após a conversa em sala de aula sobre a história do IA, realizamos uma caminhada guiada pelas dependências do Instituto. Durante ela, nos foram apresentados os locais que antigamente acomodavam o salão de festas e o bar, locais que não existem mais devido à baixa demanda do bar e à falta de espaço para salas de aula, que fizerem o salão de festas ser extinto. Paulo destacou que o salão de festas certa feita foi "vandalizado" por alunos, que pintaram uma das paredes de preto, para supostamente deixar o ambiente mais adequado para as festas que ali ocorriam. Acontece que na parede havia um painel pintado por um dos antigos professores do instituto, perdido debaixo da tinta.

Por fim, visitamos a pinacoteca e a reserva técnica do instituto e nos despedimos do mesmo ao passar pelas moulages do Apolo de Belvedere e da Vênus de Milo que emolduram a entrada.

- Fontes -

Site do IA: http://www.ufrgs.br/artes/
Panorama Crítico: http://www.panoramacritico.com/revista/index.php/expediente
Wiki do IA: http://pt.wikipedia.org/wiki/Instituto_de_Artes_da_Universidade_Federal_do_Rio_Grande_do_Sul
Todos acessados em 5 de abril de 2013.

Comentários sobre o perfil do Sábio delineado na primeira parte de Tao Teh King, de Lao Tse

- Introdução -

A obra enfatiza em diversos momentos a figura do sábio e, de forma educativa, mostra formas de agir e pensar para que um indivíduo seja um. Estas características serão apresentadas através de comentários de capítulos que mencionam diretamente O Sábio, em uma estrutura de dois parágrafos por comentário. O primeiro com uma "transcrição do trecho relevante do capítulo" e o segundo com o respectivo comentário.
Lao Tse. AKA "Velho Mestre"

- Capítulo 2 -

"O Sábio resolve seus assuntos sem atuar e divulga seus ensinamentos sem palavras. Não nega nada à multidão. Ajuda-a, mas nada pede em troca. Faz seu trabalho, mas não lhe outorga nenhum valor. Consegue sua meta, mas não reclama o mérito.E precisamente porque não reclama méritos, ninguém pode arrebatá-los."
Aqui é feita uma menção a maneira de resolver assuntos de forma discreta e sem divulgação explícita de conhecimentos ("sem palavras") ou reivindicação de méritos após uma realização, para que justamente ninguém possa questioná-los. Vejo isso como uma forma de executar tarefas causando o menor impacto possível em assuntos que não dizem respeito apenas ao conteúdo da mesma. E sem questionamento de méritos, deixando-os no inconsciente das pessoas.

- Capítulo 3 -

"Não louvando os dotados, evitarás a rivalidade e a luta. Não dando valor a coisas difíceis de conseguir, evitarás o ataque e o roubo. Não exibindo o desejável, conseguirás que os corações das pessoas permaneçam em paz.Portanto, o governo do sábio: Esvazia o coração de desejos, enche a barriga de alimentos, enfraquece as ambições e fortalece os ossos.Desse modo consegue que o povo permaneça sem conhecimentos e sem desejos, para que os mais astutos não busquem o triunfo. Pratica a Não-Ação e governa tudo em ordem."
Aqui é introduzido o conceito da Não-Ação, em uma antítese com o verbo "praticar". A Não-Ação é praticada ao não se demonstrar interesse ou associar valor às coisas, de forma a esvaziar os corações do povo de desejos, enfraquecer-lhes as ambições e encher suas barrigas de alimentos, fortalecendo-lhes os ossos. Na minha opinião, algo parecido com a política do pão e circo, da Roma antiga.

- Capítulo 7 -

"O céu é eterno e a terra perdura. Qual é o segredo da sua longevidade? Não é por não viver para si que vivem tanto? Assim, O Sábio procura ficar atrás, mas está adiante dos demais; arrisca-se, porém, encontra-se seguro e a salvo. Não é pelo desapego de si mesmo que seu Ser pode realizar-se? Por ser desinteressado obtém seu próprio bem."
Mais uma vez, Lao Tse prega o desinteresse, o sábio deve ser uma pessoa blasé. E isso é colocado como algo que, indiretamente, traz o bem pessoal do próprio sábio, pois, ao não viver para si e ser desapegado de ações em prol de interesses pessoais, o sábio, assim como o céu e a terra, perdura e permanece seguro e a salvo.

- Capítulo 12 -

"O Sábio atende ao ventre, não ao olho. Prefere o que há em seu interior não o de fora."
Esta colocação mostra que o sábio pensa de forma consistente com suas ações. Não dá valor, não demonstra interesse nem sentimentos, não reivindica méritos. O interessante é a intenção genuína e essencial que está situada no ventre e não é perceptível aos olhos.

- Capítulo 17 -

"O melhor dirigente é aquele cuja existência passa quase desapercebida por entre o povo. Depois ao que amam e veneram. Depois ao que temem. Depois ao que depreciam e desafiam.Quando tu estás falto de fé, outros perdem a fé em ti.O sábio procura passar despercebido e é parco em palavras. Quando ele consegue seu objetivo e tudo terminou, as pessoas dizem: Nós conseguimos!"
Aqui aparecem características importantes de liderança inerentes ao sábio. Um verdadeiro líder deve fazer com que seu povo se sinta parte realizadora dos objetivos traçados por ele mesmo, quando os mesmos são alcançados. O sábio tem essa capacidade.

- Capítulo 20 -

"Todos os homem tem o que necessitam mais, são brilhantes e agudos. Só eu aparento não ter nada, sou obscuro e silencioso, que estúpido sou!Todos os homens descansam em suas tumbas: Só eu persisto em permanecer fora. Entretanto, o que me diferencia dos demais, é que aprecio a Mãe que me nutre!"
Aqui, como no capítulo 12, é feita uma valorização da importância da essência de cada indivíduo. E mostra, de forma irônica ("que estúpido sou!") que demonstrar posses, brilho e aparente sagacidade, é irrelevante para se ter harmonia com sua própria essência e valores ("a Mãe que me nutre").

- Capítulo 22 -

"Portanto, o Sábio abraça a Unidade e converte-se em modelo para tudo que há sob o Céu. Destaca-se, porque não se exibe."
De forma conclusiva, Lao Tse nos diz que o sábio, por seguir tudo que foi exposto até então, acaba se destacando como um modelo para tudo que habita a Terra.

A Epopeia de Gilgamesh. Uma análise sobre a inter-relação entre vida civilizada e vida selvagem

- Vida civilizada -

O principal cenário onde se dá a vida civilizada é a cidade de Uruk, situada na antiga Mesopotâmia. À época em que a civilização Suméria habitava a região, entre 2500 e 3000 AC. O texto deixa claro que Gilgamesh fez questão de construir grandes fortificações militares ao redor da cidade (muralhas e grandes baluartes), provavelmente como uma forma de afirmar sua imagem de poder implacável, tanto externamente quanto para seu próprio povo. Uma vez que todos o temiam, respeitavam e reconheciam como um semideus, virtualmente imbatível. Além disso, a cidade ainda contava com belos templos para culto aos deuses Eanna, Anu e Ishtar, ostentando obras arquitetônicas das quais "não é possível para um homem ou rei construir algo que se equipare", como podemos observar no parágrafo que segue:
"Em Uruk ele construiu muralhas, grandes baluartes, e o abençoado templo de Eanna, consagrado a Anu, o deus do firmamento, e a Ishtar, a deusa do amor. Olhai-o ainda hoje: a parte exterior, por onde corre a cornija, tem o brilho do cobre; sua parte interior não conhece rival. Tocai a soleira, ela é antiga. Aproximai-vos de Eanna, a morada de Ishtar, nossa senhora do amor e da guerra: é inigualável, não há homem ou rei que possa construir algo que se equipare."
Poder de luta de Gilgamesh: Over 9000.
É possível observar alguns aspectos preconizados pela vida civilizada daquele povo, como a divisão formal e hierárquica de papéis, que gera a total submissão das pessoas a um rei que se aproveita de seu poder para possuir todas as virgens, filhas e esposas de Uruk, de forma luxuriosa. Como mostra o seguinte parágrafo:
"Não há pai a quem tenha sobrado um filho, pois Gilgamesh os leva todos, até mesmo as crianças; e, no entanto, um rei deveria ser um pastor para seu povo. Sua luxúria não poupa uma só virgem para seu amado; nem a filha do guerreiro nem a mulher do nobre; no entanto, é este o pastor da cidade, sábio, belo e resoluto."

- Vida selvagem -

Se Gilgamesh é o representante da vida civilizada, a narrativa traz no personagem Enkidu a figura do homem selvagem, que não foi contaminado pela sociedade e seus costumes e, por conseguinte, é uma pessoa pura e inocente, em constante contato e harmonia com os animais e a natureza. Contudo, o nascimento de Enkidu, a exemplo do de Gilgamesh, é dado sob circunstâncias divinas. O que o faz um semideus, teoricamente tão forte quanto o rei.

O parágrafo a seguir mostra a relação serena e inocente de Enkidu com a natureza:
"Seu corpo era rústico, seus cabelos como os de uma mulher; elesondulavam como o cabelo de Nisaba, a deusa dos grãos. Ele tinha o corpo coberto por pêlos emaranhados, como os de Samuqan, o deus do gado. Ele era inocente a respeito do homem e nada conhecia do cultivo da terra. Enkidu comia grama nas colinas junto com as gazelas e rondava os poços de água com os animais da floresta; junto com os rebanhos de animais de caça, ele se alegrava com a água."
Retrato falado de Enkidu 

- Convivência entre ambas -

Fica claro que e a forma de trazer um homem selvagem à vida civilizada, na história contada, é apresentá-lo aos prazeres carnais do sexo. Quando um caçador fica sabendo da existência de Enkidu, um ser provavelmente tão forte quanto Gilgamesh mas que vive recluso na selva, ordena que seu filho vá a Uruk e volte com uma rameira, uma "filha do prazer", incumbida com a missão de introduzir Enkidu à vida civilizada, através de sua arte.

Caçador para o filho: "Vai a Uruk, encontra Gilgamesh e exalta-lhe a força deste selvagem. Pede-lhe que te arranje uma rameira, uma dissoluta do templo do amor; retorna com ela e deixa que seu poder subjugue este homem. Da próxima vez que ele descer para tomar água no poço, ela estará lá, nua; e quando a vir, acenando para ele, vai abraçá-la, e os animais da selva passarão a repudiá-lo."

Gilgamesh diz: "Filho do Caçador, volta, leva contigo uma rameira, uma filha do prazer. No poço ela se desnudará; ao vê-la acenando, ele a tomará em seus braços e os animais da selva certamente passarão a repudiá-lo."

Com a consumação do ato sexual, Enkidu está adentrando a vida civilizada dos Sumérios de forma resoluta ("Por seis dias e sete noites eles ali ficaram deitados, pois Enkidu se esquecera de seu lar nas colinas."). Feito isso, simbolicamente os animais passam a repudiá-lo ele já não mais parece fazer parte da selva ("...depois de satisfeito, porém, ele voltou para os animais selvagens. Mas agora, ao vê-lo, as gazelas punham- se em disparada.")

A convivência entre sociedade civilizada e selvagem, no texto, parece muito difícil, uma vez que o homem selvagem precisa deixar de sê-lo para se relacionar com o homem civilizado. Além disso, aparentemente o único lugar onde um homem poderoso como Enkidu consegue ser uma pessoa inocente é na selva, enquanto na cidade o poder de Gilgamesh é direcionado à violência e à libertinagem.